Sobre mudar de opinião (e o avanço da ciência)

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Em tempos de nervos à flor da pele, tanto nas conversas de bar quanto – e principalmente – nas redes sociais, mudar de opinião sobre qualquer assunto muitas vezes parece algo impensável, um golpe devastador sobre o próprio ego e honra, pior até mesmo do que a própria morte. Este texto busca mudar essa impressão.

O fenômeno atual não é de todo novo nem inexplicável: é fato documentado que, em tempos de ciclo econômico ascendente, isto é, em tempos de desenvolvimento econômico, prevalece a estabilidade política acompanhada por uma aproximação das preferências políticas da sociedade. Isso leva à aproximação das propostas do governo e da “oposição” na tentativa de capturar o “eleitor mediano”, que ganha massa nesse processo de convergência (vide as propostas do PT e da “oposição” nas eleições de 2010). Enquanto isso, em tempos de crise econômica, existe uma tendência à polarização das preferências – políticas principalmente – tornando os dois lados mais “radicais”. Isso leva a propostas mais divergentes e extremas – vide o crescimento do Bolsonaro em nosso país e a situação das últimas eleições gregas, em que se viu um grande crescimento dos candidatos socialistas e neofascistas (situação parecida à que levou Hitler ao poder no entre guerras).

No entanto, o fato de este fenômeno ser documentado historicamente não significa que ele é desejável: evidências apontam para o contrário, aprofundando a insatisfação social, a instabilidade política e o crescimento e vulnerabilidade econômicos.

É visível que as redes sociais estão amplificando tal polarização: como é mais fácil/agradável ler opiniões mais similares às suas e incomoda ler opiniões contrárias, muitos usuários tendem a selecionar seu grupo de visualização de forma a ler apenas o que se alinha à sua linha de pensamento atual, se viesando cada vez mais. O tão importante contraponto parece ser demasiado inconveniente.

Sob a ótica Popperiana tal prática é extremamente nociva ao avanço da ciência (e, por que não, da sociedade), já que a ciência avançaria justamente pela refutação de paradigmas estabelecidos e a consequente instauração de novos – e “melhores” – paradigmas.

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Suas opiniões atuais são definidas por aspectos cognitivos, culturais e pelo seu conjunto informacional atual. Mudar de opinião, neste contexto, significa simplesmente que, dadas as suas preferências idiossincráticas, algo novo foi introduzido no seu conjunto informacional que fez com que uma nova opinião lhe parecesse superior à sua anterior.

Em suma, você atualizou suas informações e isso causou uma evolução (seguindo a linha Popperiana) na sua visão sobre determinado ponto. Imagine que, por exemplo, determinada pessoa acredita que todos os gansos são brancos. Se toda vez que avistar um pássaro preto ela fechar os olhos, não conferindo que tipo de pássaro é, nunca mudará esta crença. Da mesma forma, se todos os cientistas que, como Galileu, descobrissem que a Terra não é quadrada fossem reprimidos e revissem suas afirmações, poderíamos ainda acreditar que ela é quadrada. O ponto aqui é que, apesar de ser muito confortável e conveniente acreditar cegamente nos paradigmas atuais, só evoluímos pelo constante questionamento e confrontamento dos mesmos.

Logo, ao contrário do que parece ser a crença atual em nosso país, mudar de opinião deveria ser visto como algo bom: significa apenas que alguma informação nova lhe fez, à luz de suas características pessoais, julgar uma nova visão preferível à sua visão prévia, um processo claro de evolução pessoal.

Isso não quer dizer, entretanto, que deveríamos almejar trocar de opinião a todo momento: como no processo científico, o novo “paradigma” deve passar por diversos crivos para ser aceito. Não é incomum, por exemplo, dois pontos opostos parecerem igualmente aceitáveis se exemplos forem selecionados e a retórica for exercida com maestria. O processo de mudança deve envolver o constante questionamento, tanto de seus “paradigmas” atuais quanto dos potenciais.

Neste processo é sempre bom ouvir – e tentar defender internamente – os dois lados de qualquer história pois, como diria Stuart Mill, aquele que defende e só conhece um lado dos fatos é tão ou mais ignorante do que aquele que nada sabe sobre ele, pois terá que se livrar de suas estabelecidas preferências antes de se aprofundar no assunto a fim de fazer um juízo de valor “verdadeiro”.

Guido Penido

 

Referências:

  • Alesina, Alberto, Sule Ozler, Nouriel Roubini, and Phillip Swagel. 1996. Political instability and economic growth. Journal of Economic Growth 1(2): 189-211.
  • Ari Aisen and Francisco Jose Veiga, 2011. How Does Political Instability Affect Economic Growth? IMF working papers.
  • Bussière, M. and Mulder, C. (2000), Political instability and economic vulnerability. Int. J. Fin. Econ., 5: 309–330. doi: 10.1002/1099-1158(200010)5:4<309::AID-IJFE136>3.0.CO;2-I
  • Manuel Funke, Moritz Schularick, Christoph Trebesch, 2015. Going to Extremes: Politics after Financial Crises, 1870-2014, R&R European Economic Review
  • Collin Mcgill, 2002, “Looking for a Black Swan”, The New York Review of Books.
  • John Stuart Mill, 1859, “On Liberty”
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O Papel Social dos Bancos

Este texto não é sobre os programas sócio-ambientais promovidos pelos bancos. Nos próximos parágrafos tento explicar como a operação normal de um banco gera um benefício para a sociedade.

Existe uma espécie de senso comum sobre a perversidade dos bancos. Segundo reza a lenda, estas instituições fazem de tudo para extrair o dinheiro das pessoas e do governo. Além disso, a sociedade desperdiça recursos com um setor que recolhe lucros com uma simples troca de papéis, quando poderia utilizar parte desses recursos que estão empregados no setor bancário, em especial o capital humano, para gerar “renda de verdade”. Boa parte de tudo isso não é verdade.

Seria muito difícil pensar na sociedade atual sem um sistema bancário grande e dinâmico. Com auxílio dos bancos conseguimos fazer pagamentos com facilidade, agilidade e segurança; é possível enviar recursos para praticamente qualquer lugar do planeta. Os bancos estão presentes em grade parte das transações que fazemos – compras com cartão de crédito, recebimento de salários, pagamento de contas, etc. Além disso, o sistema bancário/financeiro permite que as pessoas transfiram recursos intertemporalmente de forma eficiente, ou seja, não precisamos guardar dinheiro embaixo do colchão ou mesmo recorrer ao cunhado sempre que precisamos de empréstimos. Podemos poupar com os diversos instrumentos fornecidos pelos bancos e também fazer empréstimos para transformar nossa renda futura em consumo presente – compra de bens duráveis e não duráveis – ou então colocar em prática planos de investimento como a expansão e abertura de negócios.

Existe também uma função muito importante do sistema bancário que é o gerenciamento do risco. Isso pode ocorrer de forma mais direta, como é o caso dos produtos relacionados a seguros que os bancos oferecem, ou de forma mais indireta ,por meio de produtos financeiros para a gestão de portfólio e linhas de créditos para empresas e pessoas. Talvez as pessoas não percebam no dia-a-dia esse papel dos bancos por não participarem diretamente do mercado bancário, mas ele está lá. Por exemplo: se os clientes de uma empresa atrasarem seus pagamentos, ela pode fazer um empréstimo para pagar seus funcionários.

Tente imaginar sua vida sem bancos. Um exemplo: o quão complicado seria fazer o pagamento da sua conta de energia se não houvesse uma rede de atendimento bancário (o que inclui as casas lotéricas) à sua disposição? Em primeiro lugar, as empresas que vendem energia precisariam criar uma rede só para fazer o recebimento das contas – o que traria um aumento dos custos operacionais e também uma  maior valor para a sua conta. Em segundo lugar, você precisaria se deslocar até um desses pontos para fazer o pagamento. Por outro lado, com o serviço dos bancos é possível pagar a sua conta em vários lugares, inclusive de dentro do conforto da sua própria casa. Outro exemplo: tente imaginar o financiamento de um imóvel sem o sistema bancário. Você precisaria encontrar alguém que tivesse o valor do imóvel disponível para emprestar. Além disso, essa pessoa tem que estar disposta a te emprestar o dinheiro todo. Vários problemas podem surgir: que garantia ela teria de que você pagaria empréstimo? Qual o tamanho dos juros que ela poderia cobrar? Talvez não seria melhor essa pessoa comprar o imóvel e alugar para outro? E por aí vai…

Tudo isto me leva a crer que os bancos são, intrinsecamente, instituições sociais. Eles ganham dinheiro fornecendo serviços de que as pessoas querem e que seriam extremamente caros para adquirir sem eles. O custo de monitoramento do risco dos investimentos e a administração da poupança da sociedade seriam demasiadamente altos se fossem feitas a nível de indivíduos.

Gostaria de deixar claro que não considero que desfrutamos um sistema bancário ideal. Existem alguns exageros no Brasil que poderiam ser melhorados, por exemplo a grande concentração do setor. No entanto, é uma visão muito equivocada tratar um banco como um inimigo da sociedade.

Concluo dizendo que o papel social de um banco é ser um banco. E se você ainda não está convencido de que (i) os bancos fornecem serviços importantes, (ii) a atividade bancária é importante e natural de uma economia moderna e (iii) continuará considerando os bancos inimigos da sociedade e seu também, eu tenho um novo inimigo para te sugerir: supermercados. Afinal, o que fazem esses malditos além de revender, mais caro, aquilo que compraram de outros?

“Coxinhas” e “Petralhas”, que tal um voto racional?

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Seria possível determinarmos o vencedor de uma eleição apenas analisando sua aparência? Qual a influência da beleza de um candidato na sua decisão?

Gostaríamos de acreditar que a maioria da população decide seu voto de maneira racional, analisando propostas, pesando os prós e contras de cada candidato.

Alexander Todorov, pesquisador de psicologia em Princeton, mostrou a seus alunos fotos de pessoas, por apenas alguns segundos , e pediu que as classificassem em atributos como competência e capacidade de agradar. As fotos, entretanto, não eram de pessoas aleatórias, mas de políticos de outros lugares em campanha por cargo eletivo. Ele comparou os resultados e chegou a conclusão de que em cerca de 70% das eleições o vencedor foi o candidato cujo rosto recebera maior nota no quesito “competência”.

Diante da campanha eleitoral mais suja da história, a pesquisa de Todorov nos traz questionamentos. Em que baseamos  nossas decisões? Será que realmente compreendemos melhor o cenário político do que aquele amigo que tanto odiamos do Facebook? Entre xingamentos, acusações infundadas e partidarismo cego  fica a pergunta:

Quão racional é a nossa decisão de voto ?

Para começar a discussão precisamos entender o que quero dizer aqui com “racionalidade”. Daniel Kahneman, no livro ‘Thinking, Fast and Slow’, argumenta sobre a existência de dois sistemas no cérebro humano. O sistema 1 é impulsivo e intuitivo. Ele opera automaticamente, com nenhum ou pouco esforço e nenhuma percepção de controle voluntário. Ele é responsável por atividades como detectar hostilidade numa voz, ou fazer uma “expressão de nojo” ao ver uma foto repugnante. O sistema 2 é o formulador do raciocínio e é cauteloso, apesar de as vezes preguiçoso. Ele é responsável pelas atividades mentais de maior esforço, incluindo cálculos complexos. Ele é acionado para monitorar o comportamento em um ambiente público ou verificar a validade de um argumento lógico complexo, por exemplo.

Não há sistema vilão nem herói. Cada um é essencial para atividades diversas. O sistema 1 é rápido, veloz, intuitivo. Entretanto, esse mesmo sistema é suscetível a vieses, julgamentos precipitados. O sistema 2 é mais lento, cauteloso. Cabe a ele tentar corrigir os erros do sistema 1, quando isso é possível.

Keith Stanovich, no livro ‘Rationality and the reflective mind’ trata duas mentes separadas no sistema 2. Para ele, uma lida com pensamento lento e cálculos exigentes, responsável pelo desempenho em testes de inteligência. Entretanto, o autor argumenta que inteligência elevada não torna a pessoa imune a ser tendenciosa. Há outra capacidade, a racionalidade. O ponto importante é que racionalidade é diferente de inteligência. Esse é o conceito de racionalidade que vamos abordar aqui. A capacidade de evitar vieses e intuições precipitadas do sistema 1. O pensamento superficial ou preguiçoso é uma deficiência da racionalidade do indivíduo.

Muito do que fazemos no dia-a-dia é influenciado pela nossa intuição. Podemos conhecer uma pessoa e, antes de qualquer informação além da aparência, criarmos antipatia. Não raro ouvimos frases como “não foi com a cara dela/dele”. Isso é visto em análise de candidatos frequentemente. “Tem cara de ladrão”, ou “não me passa confiança”. Estes são exemplos de análises precipitadas oriundas do sistema 1.

Embora muito criticado, o preconceito é um fenômeno social explicável. Se algum dia um pitbull atacar um parente seu, essa memória ficará para sempre fixada. Depois disso, o simples fato de ver um pitbull trará a tona uma série de respostas emocionais, físicas e químicas, que você não terá capacidade de controlar. Perceba que pouco importa se é o mesmo pitbull ou um pitbull completamente diferente. Você não vai ficar esperando pra ter certeza se ele é bonzinho. A verdade é que somos máquinas de julgar. Décimos de segundo são suficiente para que seu inconsciente crie toda uma série de concepções sobre alguém que você pouco conhece. Embora muitos digam que não possuem preconceitos, essa é apenas uma mentira do seu consciente. Esse sistema de julgamentos rápidos é uma defesa natural, selecionada durante milhões de anos de evolução. A verdadeira sabedoria está em identificar os “pré-conceitos” e saber reverter rapidamente sua opinião inicial assim que ela se mostrar errada.

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O voto é suscetível a esse tipo de julgamento precipitado e os marqueteiros eleitorais sabem disso. Não à toa estão cuidando constantemente da imagem de seus clientes. Tem se tornado quase um padrão nas campanhas o enfoque nos aspectos sentimentais do eleitor e a promoção de ações de amor e ódio, que vão muito além de uma escolha racional do melhor candidato possível para governar – aquele que tem melhores propostas e/ou ideologias similares com a sua. As campanhas apelam para vieses o tempo todo. A má interpretação de dados, gerada por análises simplistas, já foi tópico comentado aqui. Temos uma predisposição a aceitar causalidades sem análises cuidadosas. Assim como temos uma predisposição a aceitar todos os elogios ao nosso candidato e refutar todas as críticas, sem sequer fazer uma pesquisa ou uma verificação cautelosa.

A tendência a gostar de tudo que diz respeito a uma pessoa que você já admira por, talvez, apenas um motivo, é também comentada por Kahneman como uma coerência emocional exagerada. Ao gostar da maneira de um candidato falar, ou descobrir que ele tem uma história parecida com a sua, você pode achá-lo agradável, “ir com a cara dele”. Se eu lhe perguntar se você acha que ele seria um bom gestor do dinheiro público, ou se ele seria confiável, a tendência natural à sua resposta é que seja “sim”. Por mais que você não tenha nenhuma informação concreta que te auxilie nessa questão, você tem uma predisposição a acreditar que, aquela pessoa agradável, provavelmente é também confiável, e deve ser um bom gestor do dinheiro público. Esse efeito aditivo é o que leva muitas vezes pessoas a amarem candidatos, idolatrarem. Se você coloca algum candidato num pedestal, cuidado, você pode estar sofrendo de coerência emocional exagerada. Do mesmo jeito podemos ter uma predisposição a odiar um candidato. Por isso boatos e rumores “pegam” com tanta facilidade. Pessoas tendem a querer acreditar naquilo que já combina com a sua percepção inicial, com a sua intuição. Por mais que a possibilidade de verdade não tenha sido descartada, considerar boatos e rumores pode representar um desvio na racionalidade.

E você? Como você acha que vota? Será que é porque algum conhecido seu vota assim, ou porque você não vai com a cara de alguém? Talvez poucas pessoas parem para pensar de fato porque estão votando em quem estão votando. Ou, se param, estão sendo alvo de vieses frequentes, como estarem mais inclinados a gostar ou não gostar de um determinado candidato. Não quero dizer que é porque você tem uma tendência partidária, vota sempre numa mesma linha, que você está votando de maneira não racional. Mas, parar para pensar por um momento, questionar o seu voto, e tentar entender os motivos de sua identificação prévia é uma atitude fundamental que deveria ser utilizada por todos. Convido o leitor a se fazer a pergunta do começo deste parágrafo. Vou tentar resumir as respostas que você provavelmente tem para si mesmo em 3 casos:

Caso 1: Geralmente são respostas curtas do tipo “porque não voto em fulano de jeito nenhum”, “porque ouvi dizer que tal candidato é assim ou fez isso”, “porque ele/ela não passa confiança”.

Caso 2: Respostas também curtas em geral como: “porque esse candidato fez/vai fazer isso.” Ou “porque esse candidato é a favor/contra isso e eu também”.

Caso 3: Respostas mais completas como: “porque sei que as propostas dele/dela são essa, essa, e essas”, “porque ele/ela fez isso, isso e aquilo, acredita nisso, nisso e naquilo, repudia isso, isso e aquilo”.

Se você se deparou com o caso 1, acho que não preciso dizer que provavelmente você está votando pelos motivos errados. Há muitas coisas mais importantes para se considerar para uma decisão como a do voto, e essa não representaria uma escolha racional. Se você respondeu algo como o caso 2, está no caminho certo, mas ainda não é o suficiente. Apenas um fato realizado, ou apenas alguma bandeira eleitoral que te agrade não representa todo o seu voto. E lembre-se, como já mencionado, quando gostamos de uma ou duas coisas de uma pessoa, temos tendência a exagerar para o resto, sem nem estudá-lo adequadamente. Se você respondeu pelo caso 3 acredito que já teve tempo suficiente para refletir sobre o seu voto e estudar as propostas e ideias de cada candidato, como todo eleitor deve fazer.

Se esse texto lhe deu alguma luz sobre a racionalidade do seu voto e você acredita que ainda não se encontra na posição do caso 3, não se desespere. Ainda há tempo para chegar lá até o dia 26 de outubro. Corra atrás.

 

Referências:

KAHNEMAN, Daniel. Thinking, Fast and Slow. Macmillan, 2011.

STANOVICH, Keith. Rationality and the reflective mind. Oxford University Press, 2011.

TODOROV, Alexander et al. Inferences of competence from faces predict election outcomes. Science, v. 308, n. 5728, p. 1623-1626, 2005.

 

Lições das eleições

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Próximos do fim dessa corrida presidencial, a pergunta que paira no ar é: o que levaremos dessa experiência para o futuro? Será que aprendemos alguma coisa com o que vivenciamos?

Radicalismo. Essa, sem dúvida, foi a marca registrada do que podemos conceber como a mais baixa campanha eleitoral já feita na breve história da nossa democracia. Fica a impressão de uma massa internauta, composta desde pseudo-observadores políticos a militantes em ambiente virtual (MAVs) a transeuntes casuais, unida em prol de uma única causa: denegrir o candidato da oposição. Petistas ou tucanos, o que se presenciou na rede foi uma tempestade de matérias, posts, ‘memes’, e suas respectivas enxurradas de comentários que, no mínimo, se enquadram no que chamaríamos de jornalismo “questionável”.

Temos pena dos dados econômicos. Estes foram tão distorcidos, torturados e deturpados para “validar” ou “invalidar” um argumento, que uma rápida rolagem na sua timeline tem alta probabilidade de mostrar dados da mesma fonte, os quais, apresentados sob perspectivas diferentes, levam a conclusões diferentes.

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Como se uma simples análise gráfica fosse capaz de permitir a inferência de causa e consequência, além de responder a todas as perguntas sobre a vida, o universo, e tudo mais.

Quando perguntado sobre a sua opinião a respeito de algum tema (especialmente por aquele amigo que o excluiu por motivações políticas, veja o nível), o bom senso normalmente contra-indica a utilização de fontes dúbias na discussão, como “vi naquela matéria repostada no blog”. Quer citar determinada decisão do TSE? Procure no site do TSE, ou até mesmo no Google, ele provavelmente vai te encaminhar para a fonte correta. Vai usar informações econômicas? Verifique direto na fonte. Aparentemente, porém, essa simples filosofia não prevalece nos dias de hoje; afinal, internautas modernos querem tudo a apenas um clique de distância. Procurar por fontes primárias é difícil, demorado e muitas vezes, pasmem, elas não estão lá. Já diria o “famoso” economista alemão Kurt Neuer, criado no meio de uma discussão para provar um ponto.

Por outro lado, seria injusto jogar a culpa apenas no extremismo manifestado em blogs, jornais online, e militantes de plantão no Facebook. O próprio tom dos debates televisionados passou longe de corresponder às expectativas de civilidade e sofisticação que esperamos de pessoas que se dizem candidatas à presidência do país. No primeiro turno, os debates pareciam um tiroteio de pedras. A troca de acusações e alfinetadas era, de certa forma, esperada. Afinal, aquele era o momento da identificação pessoal dos eleitores com o posicionamento no espectro político das propostas de cada candidato, pequeno ou G3. Já no segundo turno, como esperado, vimos certa convergência nos programas dos candidatos remanescentes, ainda que eles não queiram admitir (alguma dose de ajuste fiscal, por exemplo, vai acontecer em 2015, independentemente do resultado das urnas).

Falando em segundo turno, em matéria de informatividade para o eleitor, os novos debates estão se saindo um fiasco. Os projetos de cada candidato para o futuro do país parecem jogados para escanteio, enquanto a tônica ficou restrita a uma troca de acusações, alfinetadas e desmentidos igual ou pior ao primeiro turno. De tal maneira que, quando se pergunta “quem você acha que ganhou o debate?”, é difícil dar uma resposta definitiva. O certo é que perdemos a chance de assistir a uma discussão proveitosa; perdeu o povo, que foi privado de compreender as diferenças entre propostas alternativas para solucionar problemas do país, que deveriam surgir de um debate frutífero.

Por fim, como economistas, nos perguntamos: como será possível termos atingido um equilíbrio tão ineficiente na disputa política? Infelizmente, até agora, apesar das inúmeras discussões que já tivemos, não chegamos em uma resposta convincente. Só nos resta esperar que, no futuro, o estilo atual de fazer campanha não passe a ser o habitual.

Felizmente, porém, parece haver luz no fim do túnel (direto da fonte é claro):

http://www.tse.jus.br/noticias-tse/2014/Outubro/tse-concede-liminar-a-aecio-e-muda-entendimento-sobre-horario-eleitoral-gratuito

O tal do FHC

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Vou lhe contar uma história. Maria era mãe solteira de dois filhos: Adão e Eva. Ao longo dos anos Maria teve vários maridos.Todos eles tentaram sem êxito resolver um problema que afligia essa família: Adão era viciado em drogas. Foi então que Maria conheceu um tal de Fernando Henrique. Fernando cortou gastos da família, pegou dinheiro emprestado e internou Adão numa clínica de reabilitação. Tudo parecia ótimo, mas o casal acabou se divorciando. Foi então que Maria conheceu um tal de Luís Inácio, cara legal, bastante carismático. Agora que o principal problema da família estava resolvido, passou a sobrar um pouco mais de dinheiro no fim do mês. Luís decidiu colocar Eva em um colégio melhor e aumentou a mesada dos filhos. Essa história parece familiar não? Vamos ver agora alguns dos possíveis desfechos para a mesma… Ahh, e se você acha que a ideia aqui é puxar a sardinha para algum dos lados, fique tranquilo, e continue lendo o texto.

Perceba que eu falei muito pouco sobre Fernando e Luís. Os dois podem ser heróis ou vilões.

Cenário A: Fernando era maluco. Por vezes tirou dinheiro da família pra gastar com amantes. Pegou dinheiro emprestado no cheque especial e pagava juros muito altos desnecessariamente. Adão largou as drogas não por causa da internação, mas porque amadureceu, e decidiu que não queria mais isso pra sua vida. Luís, por outro lado, era um santo, um gênio. Soube aplicar o dinheiro da família na educação de Eva e Adão, o que trouxe alto retorno para a família.

Cenário B: Fernando era um gênio das finanças. Resolveu o problema que assolava a família há anos e que nenhum outro ex-marido tinha conseguido. Tudo isso apesar do pouco dinheiro disponível. Fernando não tinha amantes e nunca roubou. Luís, por outro lado, era alcoólatra. Gastou muito mal o dinheiro da família. Sua sorte é que apareceu um vizinho chinês, pai de 33 crianças, que comprava todos os bolos que Maria conseguisse cozinhar. Dizem que esse dinheiro extra foi a única coisa boa que aconteceu durante o namoro com Luís. Em suma, Luís era um pateta, que só prosperou porque estava no lugar certo, na hora certa.

No cenário C ambos os ex-maridos são heróis; por outro lado, no cenário D ambos atrapalharam mais do que ajudaram.

O problema é que, agora, o prédio inteiro decidiu que entende EXATAMENTE o que aconteceu na família do Adão. Os vizinhos de Maria se dividem. Alguns defendem fervorosamente Fernando, outros tem certeza que Luís foi a melhor coisa que aconteceu àquela família. O pior de tudo é quando aparece uma galera pra comparar “dados objetivos”, “fatos contra fatos”.

Mesada da EVA: R$ 50,00 —-> R$ 300,00
Consumo mensal de chocolate: 0 barras —-> 4 barras

Os vizinhos costumam achar que esses dados mostram quem foi o melhor marido. Mas note que esses dados são compatíveis com qualquer um dos cenários citados. Em outras palavras, esses dados simplistas não informam nada.

Ainda não fez o link?

Take-home message: tenha muitas opiniões, defenda-as com afinco, mas NÃO tenha tanta certeza das coisas. Vai votar no PT? Procure textos falando mal do PT. Vai votar na oposição? Leia a opinião dos PTistas. Mais importante ainda, entenda a visão de cientistas políticos e economistas, pare de gastar seu tempo com o que é escrito por leigos. Desconfie das comparações simplistas.

one of the few certainties in life is that persons of certainty should certainly be avoided

Pra fechar, queria mandar um abraço pra você, garotão. Você mesmo, rapaz. Você, que não sabe o que é índice de Gini mas tem certeza absoluta que o Bolsa Família é bom/ruim. Você, que não faz menor ideia de porque o Banco Central aumenta a taxa de juros para conter a inflação, mas tem certeza que FHC salvou/destruiu o país. Queria avisar que, em breve, passarei no seu consultório pra falar que acho um absurdo você tratar os pacientes com anti-histamínico. Uma simples pesquisa no Google lhe informaria que a vitamina C é um anti histamínico natural. Logo, logo, passarei na sua obra para dizer que a mistura de concreto está errada. Eu li num blog que, quanto mais areia no concreto, mais forte a estrutura. Estou até pensando em parar de usar cimento.

Fernando Luz Barbosa

Correlação não implica em causalidade (caso contrário eu nunca mais tomaria sorvete)

Cientistas revelam: consumo de queijo mozarela te deixa mais inteligente!


(gráfico retirado de: http://tylervigen.com/view_correlation?id=3890)

Absurdo, certo? Mas e se eu dissesse que comer ‘sour cream’ amenta número de acidentes com motos?


(veja outros exemplos como esse nesse site.)

Se você não acreditou nos enunciados acima, parabéns: você é uma pessoa sensata. Mas então porque ainda vemos afirmações tão absurdas como essas se passarem por verdade todos os dias? Primeiro porque talvez o absurdo não seja tão fácil de reconhecermos, e certamente porque tendemos a confundir correlação com causalidade. Nesse texto, tentaremos entender por que.

Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia em 2002, dedicou grande parte de sua pesquisa ao entendimento de como as pessoas tomam decisões. No seu livro mais recente, “Thinking Fast and Slow, ele tenta fazer um apanhado de sua pesquisa acadêmica, feita em grande parte com o psicólogo Amos Tversky. Uma das conclusões mais importantes dessa pesquisa é a de que as pessoas são particularmente ruins em lidar com problemas probabilísticos (veja uma entrevista com Kahneman sobre o livro clicando aqui).

Um dos motivos para essa “deficiência” é que nosso cérebro parece ser desenhado para reconhecer padrões. De uma perspectiva evolutiva, ela pode ter deixado os primeiros hominídeos aptos a perceber situações perigosas rapidamente – e portanto evita-las. Mas essa característica também nos criou muita dificuldade para lidar com a aleatoriedade. Um exemplo particularmente interessante desse tipo de comportamento se deu quando a Apple decidiu mudar o algoritmo de escolha das músicas que iriam tocar no modo “shuffle” do iPod, devido a reclamações dos usuários que notavam que, por vezes, musicas do mesmo artista ou de artistas parecidos eram tocadas em sequência (o que é perfeitamente possível em um padrão aleatório), e portanto a seleção de músicas não parecia ser aleatória. A Apple então mudou o algoritmo de seleção das músicas para evitar que isso acontecesse. Nas palavras de Steve Jobs: ‘We’re making it less random to make it feel more random’ (veja a reportagem).

Outra maneira de frasearmos esse mesmo princípio é que nós estamos sempre, subconscientemente, procurando correlações entre eventos. Naturalmente, uma vez encontrada uma correlação entre eventos, ficamos tentados a estabelecer uma relação de causalidade entre eles. Mas confundir correlação com causalidade pode acabar gerando vários problemas na nossa interpretação dos fatos.

Antes de continuar, se você ainda não está convencido de que correlação e causalidade são duas coisas diferentes, vamos tratar de fazê-lo com alguns exemplos.

  • Observou-se que, em várias cidades nos Estados Unidos, o aumento da venda de sorvetes é acompanhado por um aumento no número de homicídios.
  • A taxa de divórcios no Estado de Maine (EUA) e o consumo per-capita de margarina nos EUA andam juntos (correlação = 0.99 – lembrando que a correlação varia entre -1 e 1).
  • A receita total de campos de golfe nos EUA tem correlação de 0.96 com o número de pessoas que morrem afogadas em fontes naturais de água (lagos, mar, etc).
  • A receita total gerada por instalações de ski tem correlação de 0.97 com o número de pessoas que morrem após ficarem embaraçados em sua roupa de cama (nos EUA).

Os dois gráficos do início desse texto e esses últimos 3 exemplos foram retirados do site (bastante interessante): http://tylervigen.com/ (há muitos outros exemplos, eu apenas escolhi alguns).

Espero que todos os leitores estejam convencidos após chegarem à conclusão de que sorvetes não induzem ninguém a cometer homicídios, mas ainda cito o livro “O Andar do Bêbado”, do físico Leonard Mlodinow, que apresenta inúmeros casos, variando de executivos de Hollywood a analistas de Wall Street, onde as pessoas tendem a perceber relações causais onde elas realmente não existem (mesmo para os leitores convencidos da diferença entre correlação e causalidade, ainda vale a leitura).

Mas então o que são exatamente correlação e causalidade?

Causalidade é uma relação entre dois eventos, A e B, que estabelece o evento A como causa do evento B, e o evento B como efeito do evento A. Por exemplo, nós sabemos que uma planta precisa de água para crescer. Logo, um pequeno fazendeiro que depende das chuvas para que sua plantação cresça, estabelece a seguinte relação: ‘chuva’ é a causa de ‘plantação crescer’ e ‘plantação crescer’ é o efeito de ‘chuva’.

Parece simples, mas não é. O grande problema com o conceito de causalidade é que não podemos medi-la. O máximo que podemos fazer é observar que toda vez que chove, a plantação cresce, e que toda vez que não chove, a plantação morre. Como nós já sabemos que as plantas precisam de água para crescer, podemos inferir que a chuva providencia água para as plantas, que então crescem. Mas note que, no final das contas, nossa observação pode apenas confirmar ou rejeitar a nossa hipótese de que plantas precisam de água para crescer. O contrário não vale, mas voltaremos a isso.

Correlação é um conceito mais complicado, então tentaremos apresenta-lo da forma mais simples possível. Vamos continuar com nosso exemplo: as variáveis aleatórias aqui são ‘quantidade de chuva’ e ‘crescimento da plantação’. Nesse caso, poderíamos observar que se chove muito, as plantas crescem muito; e que se chove pouco, as plantas crescem pouco. Se isso acontece na maioria das vezes, dizemos que há uma correlação positiva entre a quantidade de chuva e o crescimento das plantas, isto é: quanto mais chove, mais as plantas crescem. Se acontecesse o contrário (se há mais chuva, as plantas crescem menos), diríamos que há uma correlação negativa. Por fim, se a relação fosse completamente aleatória (isto é, a chuva em nada afeta o crescimentos das plantas), diríamos que a correlação é nula.

Veja que dessa discussão simples já conseguimos extrair uma conclusão extremamente importante: se sabemos como duas variáveis se comportam, então sabemos o que esperar da correlação entre elas. Mas em nenhum momento podemos dizer que, sabendo que duas variáveis têm correlação não nula, podemos inferir que uma causa a outra!

Imagine agora que o fazendeiro observa que suas vendas de produtos agrícolas sobem sempre que chove, e portanto sua renda é maior (suponha que ele não afete o preço dos produtos que vende). Em outras palavras, ele observa que a correlação entre a quantidade de chuva e a sua receita é positiva. Ele poderia então inferir que a chuva causou uma renda maior? Não! Afinal a chuva não tem relação nenhuma relação direta com sua renda. Nesse caso, a chuva afeta a renda por meio de um canal intermediário – o crescimento da produção –, mas não é causa do aumento da receita do fazendeiro.

Há outro tipo de confusão que fazemos entre correlação e causalidade, que talvez seja até mais difícil de identificar por não há uma terceira via que explique algum tipo de causalidade indireta. Ela se dá quando observamos uma correlação não nula, mas a verdadeira correlação é nula. Como explicamos em um texto anterior (clique aqui para ler), à medida que aumentamos uma amostra (aleatória), maior a chance que temos de acertar a verdadeira proporção de bolas pretas e brancas numa sacola, ou de pessoas que votam em um candidato específico. No entanto, se a amostra é pequena, nossa chance de errar é grande. O mesmo vale com a correlação entre duas variáveis aleatórias: se a amostra é grande, a correlação que observamos está provavelmente mais próxima do que estaria caso nossa amostra fosse pequena. Esse é provavelmente o caso da correlação entre o consumo de queijo e o número de doutores em engenharia civil. Por puro acaso, essas variáveis andaram juntas em alguns anos, mas se aumentarmos nossa amostras, poderíamos ver com mais clareza que elas realmente não são relacionadas.

Esse tipo de discussão já nos ajuda a entender porque as empresas farmacêuticas demoram tanto para colocar novas drogas no mercado. Tivemos um exemplo recente disso com a crise relacionada ao vírus do ebola. Como se tratava de uma situação crítica, algumas empresas até usaram medicamentos experimentais em alguns pacientes, mas isso em geral não é o caso. Em situações normais, as empresas farmacêuticas conduzem uma enorme quantidade de testes para ter certeza de que os pacientes realmente estão sendo curados pelo medicamento, e não por algum outro fator desconhecido. Em outras palavras, a mera correlação positiva entre ‘tomar o medicamento’ e ‘se curar da doença’ não é suficiente para concluir causalidade: primeiro devemos eliminar todos os outros fatores que também podem interferir na cura até que, por exclusão, concluímos que é o medicamento que a está causando.

Pois bem, o que isso tem a ver comigo, se eu não sou um fazendeiro ou uma empresa farmacêutica? Um exemplo que pode ser interessante são as campanhas dos candidatos a presidente do Brasil. A candidata à reeleição, Dilma Rouseff, frequentemente culpa a crise internacional pela má performance econômica do Brasil nos últimos anos. Como saber se essa má performance do crescimento econômico foi realmente culpa da crise internacional ou se foi culpa das políticas econômicas adotadas pelo governo? Como não podemos fazer experimentos em ciências sociais (em oposição à companhia farmacêutica), geralmente fazemos “experimentos naturais”, isto é: comparar a experiência brasileira com a experiência de países similares que adotaram políticas distintas. Esse tipo de análise é extremamente delicada, já que é muito difícil achar países similares em todos os sentidos mas que difiram em termos de política. Ao leitor interessado, cito o artigo de Carrasco et al (2014) que tenta fazer esse tipo de análise.

Para que fique claro que o objetivo desse texto não é político, note que o mesmo pode ser dito de qualquer candidato, não só da atual presidente. O candidato do PSBD, Aécio Neves, frequentemente cita bons resultados atingidos durante seu governo em Minas Gerais. Mas o período no qual ele governou coincidiu com um período de bom mercado externo, em particular para algumas commodities produzidas em Minas Gerais. Como saber se os bons resultados que o candidato menciona são fruto do bom cenário externo ou de suas políticas enquanto governador? Mais uma vez: análise das políticas e comparação com outros Estados semelhantes. Infelizmente desconheço alguma referência que tenha feito tal análise para o governo de Minas Gerais, mas tenho certeza de que existem estudos competentes com esse intuito.

A mensagem que esse texto pretende passar é: cuidado ao estabelecer relações causais entre eventos. Estudos empíricos não medem causalidade, eles apenas medem correlação. Essa afirmação é verdadeira em qualquer ciência. Nas ciências sociais em particular, as coisas são ainda piores, porque não podemos fazer experimentos. Sendo assim, estabelecer relações causais entre eventos é uma atividade extremamente delicada e requer muita atenção e reflexão. Muitas vezes nos descuidamos e confundimos uma mera correlação com causalidade, e assim descartamos outras possíveis explicações para um dado fenômeno. Esse tipo de descuido é natural, e todos já o cometemos, mas ele é por vezes muito sério e pode prejudicar nossa interpretação dos fatos. Se você leu até aqui, esperamos que esse texto tenha lhe servido para ao menos estar sempre alerta para a diferença entre o que é uma correlação e o que é uma causalidade.

Correlation

(imagem retirada de: http://xkcd.com/552/)

Referências:

CARRASCO, Vinicius, MELLO, João M. P. de, DUARTE, Isabela. A Década Perdida: 2003 – 2012. Departamento de Economia, PUC-Rio, texto para discussão nº 626. 2014. (link)

KAHNEMAN, Daniel. Thinking, Fast and Slow. Macmillan, 2011.

MLODINOW, Leonard. O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas. Rio de Janeiro, Zahar, 2011, 1ª edição.

A mágica das pesquisas eleitorais

 

 a   

É comum escutarmos frases do tipo: “não confio nessas pesquisas eleitorais; afinal, não conheço ninguém que já tenha participado de uma pesquisa dessas.”

Vamos tentar explicar, sem muita matemática, a ciência por trás dessas pesquisas de intenção de voto. Esperamos que ao final deste texto você esteja convencido de que a frase destacada acima não faz sentido.

Comecemos com uma situação hipotética bastante corriqueira. Estamos cozinhando um molho para servir no jantar e queremos saber se a quantidade de sal está boa. Imediatamente, provamos uma colherada e fazemos um diagnóstico. Soa familiar? Quando fazemos isso, estamos inconscientemente usando o mesmo princípio que os institutos de pesquisa. Pegamos uma amostra (colherada), e chegamos a alguma conclusão a respeito da população (totalidade do molho). Note que o tamanho da colherada que usamos para avaliar o molho não depende do tamanho da panela!

Imagine, agora, que o shopping perto de sua casa está com uma promoção. Você foi um dos sorteados e poderá participar do desafio descrito a seguir, concorrendo a um carro zerinho. O dono do shopping colocou uma caixa gigante bem no centro da praça de alimentação. Dentro dessa caixa estão 1 milhão de bolas nas cores preta ou branca. Seu desafio é chutar a proporção correta de bolas pretas dentre o total de bolas da caixa. Antes de fazer o seu chute, você poderá retirar algumas bolas da caixa e portanto saberá a proporção de bolas pretas dentre o total de bolas retiradas. Nesse caso, o que você faria? Lembre-se de que sua única informação disponível são as bolas retiradas. A caixa não é transparente e você não pode olhar dentro dela.

[Nota: De agora em diante chamaremos as bolas retiradas de: amostra.]

Uma resposta natural seria dizer que a proporção de bolas pretas na caixa (população) é a mesma que você observou na amostra. Ou seja, se são retiradas 10 bolas das quais 6 são pretas, o chute é que 60% das bolas dentro da caixa são pretas.

Vamos supor que o dono do shopping saiba que a proporção de bolas pretas dentro da caixa é de 50%. A grande pergunta é a seguinte. Usando a técnica de chute descrita anteriormente, qual a probabilidade de você chutar o valor correto?

Agora é fácil traçar um paralelo. Uma pesquisa eleitoral nada mais é do que retirar um pequeno número de bolas e tentar descobrir qual a proporção de bolas pretas dentro da caixa. Em outras palavras, a caixa representa o Brasil. Cada bola é um eleitor e cada cor diferente representa o voto num determinado candidato.

Voltando ao nosso desafio do shopping, se você tem o direito de retirar apenas 10 bolas da caixa, me parece improvável que exatamente 5 bolas sejam pretas e as outras 5 sejam brancas. Nesse caso improvável, você chutaria que 50% das bolas da caixa são pretas e acertaria. Entretanto, qual das opções abaixo você acharia mais provável?

a- Tirar 5 bolas pretas e 5 bolas brancas.

b- Tirar 10 bolas pretas

Se a resposta não lhe parece óbvia, simplifique e imagine que foram retiradas apenas 4 bolas. Note que existem diversas sequencias onde 50% das bolas são pretas. Por exemplo:

  • Preta,Preta,branca,branca
  • Preta,branca,preta,branca
  • Branca,branca,preta,preta

Por outro lado, só existe uma sequencia onde todas são pretas.

A mensagem aqui é a seguinte: numa pesquisa eleitoral é improvável que o pesquisador dê azar e só entreviste eleitores do PT o que faria chutar que 100% da população vota no partido dos trabalhadores. Por outro lado, é possível que isso ocorra, afinal o número de eleitores do PT é bem maior que a sua amostra.

A grande sacada vem agora. À medida que aumentamos o tamanho da amostra, a chance de errarmos o chute se torna cada vez menor. Em outras palavras, quanto mais bolas você retirar da caixa, maior a chance de seu chute estar próximo ao valor verdadeiro (50%, nesse exemplo).

Como o objetivo é ser o mais simples possível vou omitir as contas matemáticas. Vamos focar em gráficos:

b

Note como numa amostra com 1000 bolas, o mais provável é que algo próximo a 500 bolas sejam pretas. Na verdade, existe 80% de chance do total de bolas pretas retiradas estar entre 480 e 520. A intuição é a citada anteriormente, existem várias sequências de retirada onde 500 bolas são pretas (dentre um total de 1000 bolas retiradas), mas existem poucas sequências onde 998 bolas são pretas dentre um total de 1000 (retiradas).

Para o caso em que a proporção de bolas negras é diferente de 50% existe um outro efeito que se agrega ao citado acima. Se a proporção for de, por exemplo, 70% , retirar bolas pretas se torna mais provável do que retirar bolas brancas. Como o objetivo é não colocar contas aqui, direi apenas que esse efeito trabalha ao nosso favor, fazendo que os resultados mais prováveis do meu processo de amostragem sejam aqueles próximos a proporção verdadeira. Ou seja, se retirarmos 1000 bolas da caixa, os resultados mais prováveis são aqueles em que existe algo no entorno de 700 bolas negras.

c

Para fechar com chave de ouro: você consegue dizer o que acontece se triplicarmos a quantidade de bolas dentro da caixa? Ou seja, atualmente as pesquisas eleitorais são feitas com 3 mil pessoas para representar 140 milhões de eleitores. E se tivéssemos o triplo de eleitores? Precisaríamos entrevistar mais pessoas? Aliás, quantas bolas eu falei que existiam dentro da caixa mesmo? Se você não se lembra do número é porque ele só foi citado uma vez, no começo desse texto: depois, não foi usado para mais nada. Isso mesmo, não foi usado para nada, nem para as contas omitidas. Portanto, o tamanho da população não afetará nossa técnica de chute. Uma intuição melhor do porquê disso ficará para outro post pois serei obrigado a incluir um pouco de matemática.

Portanto, quando o William Bonner diz que a Dilma está com 32% das intenções de voto e que a margem de erro é de 2 pontos percentuais, com intervalo de confiança de 95%, o que ele quer dizer? Agora você já está pronto para interpretar essa informação. Lembra quando eu falei que, para aquele exemplo específico, existia 80% de chance do total de bolas pretas retiradas estar entre 480 e 520? Naquele caso estávamos fazendo o caminho inverso de uma pesquisa eleitoral. Ou seja, usei a informação que apenas o dono do shopping possuía (os tais 50%) para calcular a probabilidade da minha amostra gerar um chute entre 48% e 52%. No mundo real não sabemos a quantidade de bolas pretas dentro da caixa, o que torna as coisas um pouquinho mais complicadas. Embora pareça “razoável” interpretar a frase de Bonner como: existe 95% de chance da intenção de votos de Dilma estar entre 30 e 34 por cento, a interpretação mais precisa é a de que, se fizermos 100 pesquisas eleitorais, esperamos que o valor verdadeiro esteja a menos de 2 pontos percentuais de distância do valor que chutamos em 95 delas. Nesse caso, nosso melhor chute para o valor verdadeiro é 32%.

De uma forma ou de outra, esperamos que agora você tenha uma intuição de porque as pesquisas eleitorais podem funcionar, mesmo que você nunca tenha sido entrevistado. Isso não significa que elas não errem nunca.

Obs1: Se uma panela de molho está bem misturada, uma colherada basta para sabermos se a quantidade de sal está boa. Entretanto, numa pesquisa de intenção de votos existem concentrações regionais. Talvez a área nobre da cidade esteja mais inclinada a votar em um candidato. Ou talvez os jovens se identifiquem mais com um determinado partido. No texto acima, supusemos que a panela estava muito bem misturada, ou o que em estatística chamamos de amostra aleatória simples. Existem diversas técnicas para lidar com os dados quando o molho não está tão bem misturado, todos eles fogem ao escopo desse texto. De qualquer forma, podemos usar a mesma intuição. O segredo está em dividir a panela em partes suficientemente homogêneas e então tratarmos cada uma dessas partes como uma caixa. Se dentro de cada caixa as bolas estiverem bem misturadas, tudo bem.

Fazer uma pesquisa de votos apenas na internet não é uma boa ideia. O molho não estará bem misturado. A internet é mais acessada pelos jovens. Além disso não são todas as residências que tem acesso a rede. Nesse caso você estará provando apenas a parte mais salgada da panela. Faleremos mais sobre isso num próximo post sobre Viés de Seleção.

link: https://www.facebook.com/admRachelSheherazade/photos/a.213637028835348.1073741828.213631462169238/354303078102075/?type=1

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Obs2: No caso em que temos diversos candidatos concorrendo a um cargo o raciocínio é análogo; com cada caixa contendo bolas de várias cores. Como você já deve ter imaginado, cada cor representaria as intenções de voto para um candidato diferente.

  1. Quer entender melhor a matemática por trás dessa história ? http://terrytao.wordpress.com/2008/10/10/small-samples-and-the-margin-of-error/