Sobre mudar de opinião (e o avanço da ciência)

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Em tempos de nervos à flor da pele, tanto nas conversas de bar quanto – e principalmente – nas redes sociais, mudar de opinião sobre qualquer assunto muitas vezes parece algo impensável, um golpe devastador sobre o próprio ego e honra, pior até mesmo do que a própria morte. Este texto busca mudar essa impressão.

O fenômeno atual não é de todo novo nem inexplicável: é fato documentado que, em tempos de ciclo econômico ascendente, isto é, em tempos de desenvolvimento econômico, prevalece a estabilidade política acompanhada por uma aproximação das preferências políticas da sociedade. Isso leva à aproximação das propostas do governo e da “oposição” na tentativa de capturar o “eleitor mediano”, que ganha massa nesse processo de convergência (vide as propostas do PT e da “oposição” nas eleições de 2010). Enquanto isso, em tempos de crise econômica, existe uma tendência à polarização das preferências – políticas principalmente – tornando os dois lados mais “radicais”. Isso leva a propostas mais divergentes e extremas – vide o crescimento do Bolsonaro em nosso país e a situação das últimas eleições gregas, em que se viu um grande crescimento dos candidatos socialistas e neofascistas (situação parecida à que levou Hitler ao poder no entre guerras).

No entanto, o fato de este fenômeno ser documentado historicamente não significa que ele é desejável: evidências apontam para o contrário, aprofundando a insatisfação social, a instabilidade política e o crescimento e vulnerabilidade econômicos.

É visível que as redes sociais estão amplificando tal polarização: como é mais fácil/agradável ler opiniões mais similares às suas e incomoda ler opiniões contrárias, muitos usuários tendem a selecionar seu grupo de visualização de forma a ler apenas o que se alinha à sua linha de pensamento atual, se viesando cada vez mais. O tão importante contraponto parece ser demasiado inconveniente.

Sob a ótica Popperiana tal prática é extremamente nociva ao avanço da ciência (e, por que não, da sociedade), já que a ciência avançaria justamente pela refutação de paradigmas estabelecidos e a consequente instauração de novos – e “melhores” – paradigmas.

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Suas opiniões atuais são definidas por aspectos cognitivos, culturais e pelo seu conjunto informacional atual. Mudar de opinião, neste contexto, significa simplesmente que, dadas as suas preferências idiossincráticas, algo novo foi introduzido no seu conjunto informacional que fez com que uma nova opinião lhe parecesse superior à sua anterior.

Em suma, você atualizou suas informações e isso causou uma evolução (seguindo a linha Popperiana) na sua visão sobre determinado ponto. Imagine que, por exemplo, determinada pessoa acredita que todos os gansos são brancos. Se toda vez que avistar um pássaro preto ela fechar os olhos, não conferindo que tipo de pássaro é, nunca mudará esta crença. Da mesma forma, se todos os cientistas que, como Galileu, descobrissem que a Terra não é quadrada fossem reprimidos e revissem suas afirmações, poderíamos ainda acreditar que ela é quadrada. O ponto aqui é que, apesar de ser muito confortável e conveniente acreditar cegamente nos paradigmas atuais, só evoluímos pelo constante questionamento e confrontamento dos mesmos.

Logo, ao contrário do que parece ser a crença atual em nosso país, mudar de opinião deveria ser visto como algo bom: significa apenas que alguma informação nova lhe fez, à luz de suas características pessoais, julgar uma nova visão preferível à sua visão prévia, um processo claro de evolução pessoal.

Isso não quer dizer, entretanto, que deveríamos almejar trocar de opinião a todo momento: como no processo científico, o novo “paradigma” deve passar por diversos crivos para ser aceito. Não é incomum, por exemplo, dois pontos opostos parecerem igualmente aceitáveis se exemplos forem selecionados e a retórica for exercida com maestria. O processo de mudança deve envolver o constante questionamento, tanto de seus “paradigmas” atuais quanto dos potenciais.

Neste processo é sempre bom ouvir – e tentar defender internamente – os dois lados de qualquer história pois, como diria Stuart Mill, aquele que defende e só conhece um lado dos fatos é tão ou mais ignorante do que aquele que nada sabe sobre ele, pois terá que se livrar de suas estabelecidas preferências antes de se aprofundar no assunto a fim de fazer um juízo de valor “verdadeiro”.

Guido Penido

 

Referências:

  • Alesina, Alberto, Sule Ozler, Nouriel Roubini, and Phillip Swagel. 1996. Political instability and economic growth. Journal of Economic Growth 1(2): 189-211.
  • Ari Aisen and Francisco Jose Veiga, 2011. How Does Political Instability Affect Economic Growth? IMF working papers.
  • Bussière, M. and Mulder, C. (2000), Political instability and economic vulnerability. Int. J. Fin. Econ., 5: 309–330. doi: 10.1002/1099-1158(200010)5:4<309::AID-IJFE136>3.0.CO;2-I
  • Manuel Funke, Moritz Schularick, Christoph Trebesch, 2015. Going to Extremes: Politics after Financial Crises, 1870-2014, R&R European Economic Review
  • Collin Mcgill, 2002, “Looking for a Black Swan”, The New York Review of Books.
  • John Stuart Mill, 1859, “On Liberty”
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