O Papel Social dos Bancos

Este texto não é sobre os programas sócio-ambientais promovidos pelos bancos. Nos próximos parágrafos tento explicar como a operação normal de um banco gera um benefício para a sociedade.

Existe uma espécie de senso comum sobre a perversidade dos bancos. Segundo reza a lenda, estas instituições fazem de tudo para extrair o dinheiro das pessoas e do governo. Além disso, a sociedade desperdiça recursos com um setor que recolhe lucros com uma simples troca de papéis, quando poderia utilizar parte desses recursos que estão empregados no setor bancário, em especial o capital humano, para gerar “renda de verdade”. Boa parte de tudo isso não é verdade.

Seria muito difícil pensar na sociedade atual sem um sistema bancário grande e dinâmico. Com auxílio dos bancos conseguimos fazer pagamentos com facilidade, agilidade e segurança; é possível enviar recursos para praticamente qualquer lugar do planeta. Os bancos estão presentes em grade parte das transações que fazemos – compras com cartão de crédito, recebimento de salários, pagamento de contas, etc. Além disso, o sistema bancário/financeiro permite que as pessoas transfiram recursos intertemporalmente de forma eficiente, ou seja, não precisamos guardar dinheiro embaixo do colchão ou mesmo recorrer ao cunhado sempre que precisamos de empréstimos. Podemos poupar com os diversos instrumentos fornecidos pelos bancos e também fazer empréstimos para transformar nossa renda futura em consumo presente – compra de bens duráveis e não duráveis – ou então colocar em prática planos de investimento como a expansão e abertura de negócios.

Existe também uma função muito importante do sistema bancário que é o gerenciamento do risco. Isso pode ocorrer de forma mais direta, como é o caso dos produtos relacionados a seguros que os bancos oferecem, ou de forma mais indireta ,por meio de produtos financeiros para a gestão de portfólio e linhas de créditos para empresas e pessoas. Talvez as pessoas não percebam no dia-a-dia esse papel dos bancos por não participarem diretamente do mercado bancário, mas ele está lá. Por exemplo: se os clientes de uma empresa atrasarem seus pagamentos, ela pode fazer um empréstimo para pagar seus funcionários.

Tente imaginar sua vida sem bancos. Um exemplo: o quão complicado seria fazer o pagamento da sua conta de energia se não houvesse uma rede de atendimento bancário (o que inclui as casas lotéricas) à sua disposição? Em primeiro lugar, as empresas que vendem energia precisariam criar uma rede só para fazer o recebimento das contas – o que traria um aumento dos custos operacionais e também uma  maior valor para a sua conta. Em segundo lugar, você precisaria se deslocar até um desses pontos para fazer o pagamento. Por outro lado, com o serviço dos bancos é possível pagar a sua conta em vários lugares, inclusive de dentro do conforto da sua própria casa. Outro exemplo: tente imaginar o financiamento de um imóvel sem o sistema bancário. Você precisaria encontrar alguém que tivesse o valor do imóvel disponível para emprestar. Além disso, essa pessoa tem que estar disposta a te emprestar o dinheiro todo. Vários problemas podem surgir: que garantia ela teria de que você pagaria empréstimo? Qual o tamanho dos juros que ela poderia cobrar? Talvez não seria melhor essa pessoa comprar o imóvel e alugar para outro? E por aí vai…

Tudo isto me leva a crer que os bancos são, intrinsecamente, instituições sociais. Eles ganham dinheiro fornecendo serviços de que as pessoas querem e que seriam extremamente caros para adquirir sem eles. O custo de monitoramento do risco dos investimentos e a administração da poupança da sociedade seriam demasiadamente altos se fossem feitas a nível de indivíduos.

Gostaria de deixar claro que não considero que desfrutamos um sistema bancário ideal. Existem alguns exageros no Brasil que poderiam ser melhorados, por exemplo a grande concentração do setor. No entanto, é uma visão muito equivocada tratar um banco como um inimigo da sociedade.

Concluo dizendo que o papel social de um banco é ser um banco. E se você ainda não está convencido de que (i) os bancos fornecem serviços importantes, (ii) a atividade bancária é importante e natural de uma economia moderna e (iii) continuará considerando os bancos inimigos da sociedade e seu também, eu tenho um novo inimigo para te sugerir: supermercados. Afinal, o que fazem esses malditos além de revender, mais caro, aquilo que compraram de outros?

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