“Coxinhas” e “Petralhas”, que tal um voto racional?

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Seria possível determinarmos o vencedor de uma eleição apenas analisando sua aparência? Qual a influência da beleza de um candidato na sua decisão?

Gostaríamos de acreditar que a maioria da população decide seu voto de maneira racional, analisando propostas, pesando os prós e contras de cada candidato.

Alexander Todorov, pesquisador de psicologia em Princeton, mostrou a seus alunos fotos de pessoas, por apenas alguns segundos , e pediu que as classificassem em atributos como competência e capacidade de agradar. As fotos, entretanto, não eram de pessoas aleatórias, mas de políticos de outros lugares em campanha por cargo eletivo. Ele comparou os resultados e chegou a conclusão de que em cerca de 70% das eleições o vencedor foi o candidato cujo rosto recebera maior nota no quesito “competência”.

Diante da campanha eleitoral mais suja da história, a pesquisa de Todorov nos traz questionamentos. Em que baseamos  nossas decisões? Será que realmente compreendemos melhor o cenário político do que aquele amigo que tanto odiamos do Facebook? Entre xingamentos, acusações infundadas e partidarismo cego  fica a pergunta:

Quão racional é a nossa decisão de voto ?

Para começar a discussão precisamos entender o que quero dizer aqui com “racionalidade”. Daniel Kahneman, no livro ‘Thinking, Fast and Slow’, argumenta sobre a existência de dois sistemas no cérebro humano. O sistema 1 é impulsivo e intuitivo. Ele opera automaticamente, com nenhum ou pouco esforço e nenhuma percepção de controle voluntário. Ele é responsável por atividades como detectar hostilidade numa voz, ou fazer uma “expressão de nojo” ao ver uma foto repugnante. O sistema 2 é o formulador do raciocínio e é cauteloso, apesar de as vezes preguiçoso. Ele é responsável pelas atividades mentais de maior esforço, incluindo cálculos complexos. Ele é acionado para monitorar o comportamento em um ambiente público ou verificar a validade de um argumento lógico complexo, por exemplo.

Não há sistema vilão nem herói. Cada um é essencial para atividades diversas. O sistema 1 é rápido, veloz, intuitivo. Entretanto, esse mesmo sistema é suscetível a vieses, julgamentos precipitados. O sistema 2 é mais lento, cauteloso. Cabe a ele tentar corrigir os erros do sistema 1, quando isso é possível.

Keith Stanovich, no livro ‘Rationality and the reflective mind’ trata duas mentes separadas no sistema 2. Para ele, uma lida com pensamento lento e cálculos exigentes, responsável pelo desempenho em testes de inteligência. Entretanto, o autor argumenta que inteligência elevada não torna a pessoa imune a ser tendenciosa. Há outra capacidade, a racionalidade. O ponto importante é que racionalidade é diferente de inteligência. Esse é o conceito de racionalidade que vamos abordar aqui. A capacidade de evitar vieses e intuições precipitadas do sistema 1. O pensamento superficial ou preguiçoso é uma deficiência da racionalidade do indivíduo.

Muito do que fazemos no dia-a-dia é influenciado pela nossa intuição. Podemos conhecer uma pessoa e, antes de qualquer informação além da aparência, criarmos antipatia. Não raro ouvimos frases como “não foi com a cara dela/dele”. Isso é visto em análise de candidatos frequentemente. “Tem cara de ladrão”, ou “não me passa confiança”. Estes são exemplos de análises precipitadas oriundas do sistema 1.

Embora muito criticado, o preconceito é um fenômeno social explicável. Se algum dia um pitbull atacar um parente seu, essa memória ficará para sempre fixada. Depois disso, o simples fato de ver um pitbull trará a tona uma série de respostas emocionais, físicas e químicas, que você não terá capacidade de controlar. Perceba que pouco importa se é o mesmo pitbull ou um pitbull completamente diferente. Você não vai ficar esperando pra ter certeza se ele é bonzinho. A verdade é que somos máquinas de julgar. Décimos de segundo são suficiente para que seu inconsciente crie toda uma série de concepções sobre alguém que você pouco conhece. Embora muitos digam que não possuem preconceitos, essa é apenas uma mentira do seu consciente. Esse sistema de julgamentos rápidos é uma defesa natural, selecionada durante milhões de anos de evolução. A verdadeira sabedoria está em identificar os “pré-conceitos” e saber reverter rapidamente sua opinião inicial assim que ela se mostrar errada.

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O voto é suscetível a esse tipo de julgamento precipitado e os marqueteiros eleitorais sabem disso. Não à toa estão cuidando constantemente da imagem de seus clientes. Tem se tornado quase um padrão nas campanhas o enfoque nos aspectos sentimentais do eleitor e a promoção de ações de amor e ódio, que vão muito além de uma escolha racional do melhor candidato possível para governar – aquele que tem melhores propostas e/ou ideologias similares com a sua. As campanhas apelam para vieses o tempo todo. A má interpretação de dados, gerada por análises simplistas, já foi tópico comentado aqui. Temos uma predisposição a aceitar causalidades sem análises cuidadosas. Assim como temos uma predisposição a aceitar todos os elogios ao nosso candidato e refutar todas as críticas, sem sequer fazer uma pesquisa ou uma verificação cautelosa.

A tendência a gostar de tudo que diz respeito a uma pessoa que você já admira por, talvez, apenas um motivo, é também comentada por Kahneman como uma coerência emocional exagerada. Ao gostar da maneira de um candidato falar, ou descobrir que ele tem uma história parecida com a sua, você pode achá-lo agradável, “ir com a cara dele”. Se eu lhe perguntar se você acha que ele seria um bom gestor do dinheiro público, ou se ele seria confiável, a tendência natural à sua resposta é que seja “sim”. Por mais que você não tenha nenhuma informação concreta que te auxilie nessa questão, você tem uma predisposição a acreditar que, aquela pessoa agradável, provavelmente é também confiável, e deve ser um bom gestor do dinheiro público. Esse efeito aditivo é o que leva muitas vezes pessoas a amarem candidatos, idolatrarem. Se você coloca algum candidato num pedestal, cuidado, você pode estar sofrendo de coerência emocional exagerada. Do mesmo jeito podemos ter uma predisposição a odiar um candidato. Por isso boatos e rumores “pegam” com tanta facilidade. Pessoas tendem a querer acreditar naquilo que já combina com a sua percepção inicial, com a sua intuição. Por mais que a possibilidade de verdade não tenha sido descartada, considerar boatos e rumores pode representar um desvio na racionalidade.

E você? Como você acha que vota? Será que é porque algum conhecido seu vota assim, ou porque você não vai com a cara de alguém? Talvez poucas pessoas parem para pensar de fato porque estão votando em quem estão votando. Ou, se param, estão sendo alvo de vieses frequentes, como estarem mais inclinados a gostar ou não gostar de um determinado candidato. Não quero dizer que é porque você tem uma tendência partidária, vota sempre numa mesma linha, que você está votando de maneira não racional. Mas, parar para pensar por um momento, questionar o seu voto, e tentar entender os motivos de sua identificação prévia é uma atitude fundamental que deveria ser utilizada por todos. Convido o leitor a se fazer a pergunta do começo deste parágrafo. Vou tentar resumir as respostas que você provavelmente tem para si mesmo em 3 casos:

Caso 1: Geralmente são respostas curtas do tipo “porque não voto em fulano de jeito nenhum”, “porque ouvi dizer que tal candidato é assim ou fez isso”, “porque ele/ela não passa confiança”.

Caso 2: Respostas também curtas em geral como: “porque esse candidato fez/vai fazer isso.” Ou “porque esse candidato é a favor/contra isso e eu também”.

Caso 3: Respostas mais completas como: “porque sei que as propostas dele/dela são essa, essa, e essas”, “porque ele/ela fez isso, isso e aquilo, acredita nisso, nisso e naquilo, repudia isso, isso e aquilo”.

Se você se deparou com o caso 1, acho que não preciso dizer que provavelmente você está votando pelos motivos errados. Há muitas coisas mais importantes para se considerar para uma decisão como a do voto, e essa não representaria uma escolha racional. Se você respondeu algo como o caso 2, está no caminho certo, mas ainda não é o suficiente. Apenas um fato realizado, ou apenas alguma bandeira eleitoral que te agrade não representa todo o seu voto. E lembre-se, como já mencionado, quando gostamos de uma ou duas coisas de uma pessoa, temos tendência a exagerar para o resto, sem nem estudá-lo adequadamente. Se você respondeu pelo caso 3 acredito que já teve tempo suficiente para refletir sobre o seu voto e estudar as propostas e ideias de cada candidato, como todo eleitor deve fazer.

Se esse texto lhe deu alguma luz sobre a racionalidade do seu voto e você acredita que ainda não se encontra na posição do caso 3, não se desespere. Ainda há tempo para chegar lá até o dia 26 de outubro. Corra atrás.

 

Referências:

KAHNEMAN, Daniel. Thinking, Fast and Slow. Macmillan, 2011.

STANOVICH, Keith. Rationality and the reflective mind. Oxford University Press, 2011.

TODOROV, Alexander et al. Inferences of competence from faces predict election outcomes. Science, v. 308, n. 5728, p. 1623-1626, 2005.